El balcón de enfrente

martes, 17 de octubre de 2017

Uma «imitatio» llansoliana: «Cruzar la puerta que quedó entornada»


Não poderei, acho, dissimular a emoção que sinto hoje em estar aqui, nesta sala, ao proferir o nome de Maria Gabriela Llansol com admiração. Confesso que nem foi há muito tempo que isso aconteceu, mas como nas grandes paixões, o tempo parece ter-se iniciado, ou se calhar encerrado, com a leitura dos livros dela. À generosidade do meu amigo João Barrento agradeço a bondade deste momento tão especial para mim. E como prefiro começar, certas coisas, pelo final proponho-lhes abrir a última página de Cruzar la puerta que quedó entornada e ler, no colofão, uma citação de Maria Gabriela Llansol. Com as palavras dela gostaria de agradecer a todos, amigas e amigos, a vossa presença nesta sala: «Dia de uma excecional felicidade: eu estava ligada a todos, todos se ligavam a mim. Perfeita presença». Há exatamente 40 anos e 14 dias ela já estava a falar de nós. Obrigado por terem vindo pelo prazer da palavra.
Quem me ofereceu pela primeira vez o nome de Maria Gabriela Llansol não podia ser outro senão o João Barrento, gosto de o lembrar. Peguei numa tarde qualquer, com a ingenuidade que a gente tem ao passar páginas, no seu lindíssimo livro nas Edições Averno, o Diário do Dia Seguinte , com um título que estremece: Como um hiato na respiração.  Livro aliás que torna o mais soturno pensamento num pensamento vibrante e não sei se poderei dizer alegre, mas sim jubiloso. Lá encontrei algumas citações dum nome para mim, na altura, desconhecido. No início ponderei, inclusive, ser fruto da heteronomia inspiradora do autor. Mas não, Maria Gabriela Llansol existiu e eu devia tê-la vislumbrado nas muitas livrarias de Lisboa, que visitava compulsivamente, quando nos anos 83, 84 e 85 morei no Lumiar.  A Restante Vida, Na Casa de Julho e Agosto ou Causa Amante... foram títulos que pululavam sobre as mesas das livrarias sem eu reparar neles. Em minha defesa só posso dizer que era muito novo e inexperiente e a minha única paixão era a poesia. Duas razões ótimas, estou a ver, para a ter descoberto na altura.      
O primeiro livro que li de Maria Gabriela Llansol foi o Livro das Comunidades, o volume que me resultou mais fácil encontrar, na tradução para o espanhol feita por Atalaire pertencente à trilogia Geografia de Rebeldes. Uma esplêndida tradução, posso hoje dizer com certeza, pois já li depois esse livro inicial e iniciático no original. Lembro a impressão que tive: pela primeira vez na minha experiência de leitor, não especialmente dado às vanguardas, senti que o peso do significado newtoniano da prosa, até então para mim o valor mais importante na leitura, sumia-se com uma leveza incompreensível e deixava na página sentidos que livremente se ligavam uns aos outros sem que nenhuma força gravitacional os empurrasse para o chão branco da folha. Na altura, eu estava a escrever uma série de textos nos quais brincava com autores de que gosto, retratados na sua juventude, num momento de admiração pelos clássicos. E a minha impressão foi logo transferida para a moça Maria Gabriela que imaginei a seguir os passos de Juan de Yepes, mais conhecido como Juan de la Cruz, na brincadeira textual convertido num pregoeiro gago. É o texto com o qual começa Cruzar la puerta que quedó entornada, e também esta apresentação.

1962 — Os pregos na erva
No duró mucho en el puesto Juan de Yepes. Tres días. Nadie preguntó quién se había preocupado por oírle antes, nadie le echó en falta después. Balbucía palabras ininteligibles el pregonero  tartajoso.  Enmascaraba horarios, desfiguró hasta la frase más obvia. Ninguna convención servía tampoco para descifrarle. Alargaba y acortaba los sonidos sin regla.  A la tercera tarde de salir a declamar los anuncios del consistorio ya se había convertido en una irrisión generalizada. Para todos, menos para María Gabriela, que le persiguió por las calles las tres jornadas, conmovida, y aún continúa así, por la deslumbrante belleza de lo incomprensible. 

Pensei que este seria o único e o último texto conotativo que escreveria; e lá ficou, na sua série. Pronto. Mas continuei a ler a Maria Gabriela Llansol. O enlevo intelectual desta leitura encaminhava-me para um possível ensaio. Neste sentido, decidi seguir a linha cronológica das publicações da autora, enquanto cada título aumentava o fascínio e a vontade de alcançar a máxima intimidade com a obra dela.
Todos os meus passos, tal como tinha feito antes com escritoras e escritores que fui conhecendo, apontavam para um trabalho crítico, se calhar sobre o Livro das Comunidades. É o que eu poderia ter feito agora, por exemplo, falando dum motivo recorrente que logo me maravilhou: as ideias sobre a escrita. Só uma citação llansoliana: «São João da Cruz... escrevia a meu lado e... eu sonhava que, no meu quarto, ele ia principiar a escrever o que já escrevera (18)».
Esta conceção dinâmica da escrita que fulmina a linearidade cronológica do tempo, para situá-la em idêntico plano temporal que a leitura permitia uma demorada meditação concetual. Mas eu peguei de imediato na caneta e procurei, no plano exclusivo do espaço, descobrir onde é que a Maria Gabriela estava a escrever aquilo que eu estava a ler, com a sensação de permanecer mesmo ao pé dela. E apareceu um poema que muito cedo seria o princípio duma conversa, em idêntico plano espacial, com aquilo que eu estava a ler:

I. Charla  |  1 
Un charco de luz donde flotan las ramas que el viento del otoño ha arrancado. Encuentro a Ana de Peñalosa en la cocina. Escribe. El cuaderno abierto sobre el mantel de cuadros rojiblancos. La escucho con la espalda apoyada en los azulejos de la pared. Con el frescor recorriéndola. El rumor de la pluma al arañar el papel. La atiendo ensimismado. Sé que podría decir algo en cualquier momento, y Ana levantaría los ojos para mirarme. Pero entonces dejaría de oírla, así que callo. Y sin embargo hay una conversación. Las ramas del tilo que caen en la blanca alberca. 

Na leitura que acontece ao mesmo tempo em que aconteceu a escrita, o leitor não só tenta não incomodar, mas aproveita a sua presença incógnita na sala para cuidar aquilo que ficou escrito. O nascimento da escrita acontece, aliás como qualquer nascimento, no meio duma grande fragilidade. É o leitor o único que pode dar-lhe a permanência que não teve na origem, pois a escrita é mortal, o que não é mortal é a leitura enquanto houver leitores.
A permanência pode ser dada de múltiplas formas, eu imaginei uma para mim, no poema seguinte, mas queria dedicá-la hoje ao labor de edição dos cadernos de Maria Gabriela, que João Barrento e Maria Etelvina Santos realizam. Com o tecido fino a limpar cuidadosamente as riscaduras da escrita:

La nostalgia de réplicas la suple Eleonora gracias a una pequeña maceta con siete bulbos de narciso. Si el terciopelo de los nubarrones cuelga como cortina ante la ventana, la coloca en el alféizar. Si una frase adolece de esta ausencia de voces por los corredores de su construcción, la deja entonces en la mesa, sobre el montón de folios escritos. Sin precaución, a veces, por regarla, vierte la jarra del agua y me apresuro trapo en mano a limpiar tierra y humedad antes de que la tinta abandone las palabras, salte de unas a otras, las confunda, las ciegue. 

Neste ponto, a simples leitura revelou o que estava a fazer.  Em lugar de tentar racionalizar cada uma das virtudes da prosa que encontrava, sentia a tentação de refleti-la criativamente.  Aquilo que começara a fazer de maneira intuitiva tinha nome e, sobretudo, tradição. Era uma imitação. Mas uma imitação clássica. Uma Imitatio. A forma como os antigos conversavam e aprendiam com os seus mestres. Assim cada descobrimento llansoliano levava-me à escrita dum fragmento próprio. Sobre a Imitatio só gostava de lembrar agora o seu propósito. Ao contrário dos modernos, que como vocês bem sabem, só gostam de reproduzir na imitação os recursos expressivos, e, por isso, não têm piada nenhuma, os clássicos procuravam criar recursos expressivos próprios para os temas e motivos que recolhiam dos autores que admiravam. Mas, como sempre acontece, quem melhor exprimiu esta ideia foi a Maria Gabriela no Livro das Comunidades. A citação diz: «Leio um texto e vou cobrindo-o com o meu próprio texto que esboço no alto da página, mas que projeta a sua sombra escrita sobre toda a mancha escrita». Ler é a primeira caligrafia da escrita.
Neste sentido, alcancei logo o núcleo de intensidade em volta do qual girava o fragmento no estilo llansoliano, o que ela vai chamar, mais adiante, as «cenas fulgor». Intensidade que eu imaginei como a atração natural que têm algumas pessoas pelo caráter revelador do seu conhecimento. E tentei mostrar esta atração da intensidade na prosa llansoliana com o poema protagonizado por Marta e Maria, irmãs beguinas, que distribuíam epifanias ao passar. O eu que aparece no texto é, claro, o eu leitor; e Marta e Maria encarnam o emblema da prosa llansoliana:

Cestos de mimbre a medio llenar, o medio vacíos, arrumbados bajo un soportal. Cántaros que dan de beber al sol. Gallinas que estrenan la libertad. Basta el paso por las callejas del mercado de Marta y María, las dos hermanas beguinas, para que lo perentorio extravíe sus razones. También a mí me ocurre. Por seguirlas con la vista descuido cualquier negocio que tuviera entre manos. Y ni siquiera voy a susurrarles severa cuestión al oído y escuchar su consejo con pasmo en el rostro. Ni desdoblo las mil dobleces de una carta para oír cómo transforman los garabatos en palabras. 

No entanto o impacto mais importante que tive ao ler o Livro das Comunidades foi a descoberta duma poética do espaço. O século de Maria Gabriela Llansol foi o século da temporalidade. O de Ser e Tempo. O tempo atravessou a filosofia e a poesia das décadas com o sua angustiosa cadência. Para os antigos espaço e tempo partilhavam idêntica condição, mas no decurso da história o tempo consolidou-se como um tema universal e o espaço como uma simples circunstância, um tropo. E o século de Maria Gabriela Llansol conheceu, a partir das poéticas existencialistas, o apogeu da temporalidade. Mas a espantosa frase inicial do Livro das Comunidades esquece drasticamente o tempo e situa o peso temático só sobre o espaço: «nesse lugar havia uma mulher que não queria ter filhos de seu ventre». Mais: os capítulos chamam-se «Lugar», isto é, o espaço toma o protagonismo também estrutural do livro. E o tempo, de modo explícito nesse mesmo parágrafo, passa agora a ser uma circunstância: «tinha uma maneira distante de fazer amor: pelos olhos e pela palavra. Também pelo tempo, pois desde os tempos da sua bisavó, voltar a qualquer época era sempre possível».
O tempo é apenas uma maneira de fazer, e além um tempo desprendido de todos os atributos existencialistas: «voltar a qualquer época era sempre possível». Este início do Livro das Comunidades levantou em mim, para quem a condição humana foi sempre Ser e Espaço, uma admiração sem limites.
            Conforme a poética «criadora de espaço», dito com expressão de LLansol, se ia desenvolvendo, eu passei a precisar de uma escrita menos narrativa para continuar a conversa. A descoberta de ideias tão rutilantes aconselhou-me o diário, género que Maria Gabriela Llansol levou, poucos anos depois do Livro que estamos a comentar, à maior grandeza literária. E continuei a escrever poemas, agora como apontamentos pessoais, nesse diálogo permanente que se estabeleceu entre o leitor e a autora. Dei-lhe nome cortaziano, Maga, acrónimo do nome dela; escrevi o apelido do avesso, com uma mínima adaptação ortográfica, Losnay, e continuei a numeração que a autora utilizou para o seu diário o dia 15 de Novembro de 1981, em Um falcão no punho, e deixou o dia seguinte inconcluso. O primeiro texto desse diário que vai desenvolver-se por quatro das oito séries do meu livro, mostra os efeitos em mim deste impacto inicial:

II. Maga Losnay, dietario
# 545
Género redundante, lo es el diario cuando copia el tiempo que ha sido. Si se ha ido, ¿qué le añade lo escrito? ¿La permanencia? Pero no amarran las palabras el tiempo como los cabos sujetan el barco al noray. ¿Qué le añade, entonces, al querer así fijarlo? El buque retenido en puerto —mientras los marineros engordan y las arañas aprovechan los orificios de la cadena que tensa el ancla para sus delirios geométricos—, ¿continúa siendo navío? Al diario le corroe idéntica quietud. Solo le libera desentenderse del tiempo: contar lo que ocurra cuando una ya no esté. Ser espacio. 

Diário que às vezes olhava os espaços comuns que descobria na leitura llansoliana, e outras vezes descrevia apenas os meus espaços trazidos à luz dessa leitura, como o seguinte fragmento, que é uma evocação da ruela que me leva todos os dias ao meu lugar de trabalho:

# 547 
El manto que los jazmines han tejido sobre la tapia de un jardín. La calle. En la luz de invierno, los ciruelos florecen. El caminar me lleva de uno a otro. El viento agita las ramas. Una paloma aletea para alzar el vuelo. Los pasos de quien calza botas detrás. Un furgón de reparto los borra, pero su lejanía me los devuelve. Así es como se va comprendiendo el oleaje de lo real. Una frase que me regalan los muchachos que caminan hacia el instituto. Alguien que tiende la colada desde una ventana. Pensar, ir de una a otra sensación. 

            Nesta altura, ao crescer em paralelo leitura llansoliana e escrita, apareceram novas hipóteses de séries poéticas. Descobri o imenso valor da prosopopeia na ameixeira em flor que plantou, cuidava e mimava no jardim da casa dela. E logo comecei a escrever os poemas que teria escrito a Prunus Triloba como réplicas àquelas páginas que a Maria Gabriela Llansol escreveu sobre o arbusto com quem falava amiúde. Lerei um dos textos desta série de pensamento vegetal:

Quien dibuje un círculo y se inscriba en su centro ha perdido el contacto con lo que le rodea. No lo ve cuando mira porque cuanto existe ha dejado de estar dentro del trazo que cercena la existencia. Solo se encontrará a sí mismo quien se considere el núcleo, el resto vivirá a sus espaldas. Como vivían el granado romano, el níspero gótico y los gatos renacentistas en este abandono antes de que llegara Ella. La que me plantó junto a la puerta, me cuidó, me quiso como quería a todo lo viviente. Una planta más, un ser entre seres. 

           Em outra série, esta mais narrativa, a partir duma menção llansoliana sobre a neve que estava a cair no dia do nascimento de Ana de Peñalosa, tentei traçar o percurso que o pranto da criança recém-nascida levou desde o quarto onde ocorreu, através de ruas, tabernas, campanários, campos lavrados e bosques, até os ouvidos de João da Cruz, que assim recebeu a notícia:

Los tejadillos de pizarra, el chapitel, el alféizar de las ventanas… blancos. La campa entera, un sudario sin muerto. Nieva. El castillo también enharinado, como una hogaza gigante a punto de entrar en el horno. No ha dejado Juan aún atrás, pese a las penalidades propias de un adulto, el niño que sigue siendo. Los mercaderes que han acudido de mañana a la feria de Medina se arrebujan bajo un soportal. Cuentan historias que inventan al paso del aburrimiento. Juan Yepes escucha y mira. ¿Ha visto vesarced germinar vástago de mujer? —pegunta uno para que le dejen hablar de nacimientos.

A última das séries, além dos diários de Maga Losnay, titula-se «Biografia do olhar», e está formada por textos que, a partir de apreciações llansolianas, procuraram perceber diferentes formas de olhar e os significados que têm. Concluirei esta apresentação com a leitura de textos desta série. Só gostaria, neste final, enfatizar que o estado de criador de espaço poético, diga-se à maneira llansoliana, foi vivido por mim como uma aventura espiritual de ligação e presença com Maria Gabriela Llansol que nunca previ nem planifiquei, só senti que acontecia como um ingrediente natural da leitura. E foi isso que tentei expressar esta tarde, com a emoção de quem foi arrastado pela deslumbrante beleza da palavra llansoliana.

VII. Biografía de la mirada
1
Voy de la mano con mi padre por la Calçada da Estrela contando los tranvías que suben y los que bajan. Le miro y sigo buscando qué miran sus ojos, que no se posan sobre nada que vea yo delante. Voy contemplándome en el reflejo de los escaparates de las tiendas por donde pasamos y admiro una y otra vez el vestido que llevo puesto y que tanto me gusta, pero que mi padre no parece advertir. Voy saltando en el empedrado por encima de bichos que ahora solo ven mis ojos y cuando reclamo los suyos tampoco los encuentro. 

Podía no ver a nadie, aun mirándole a los ojos. Se cruzaba por los corredores sin responder a los saludos aunque a menudo caminara hablando, consigo misma o con el vacío que la acompañaba allá adonde fuera. Cara de persona solitaria, gesto abandonado, nunca se le vio, ni aquella tristeza que empalidece las facciones. Andaba siempre alegre, puro júbilo que no compartía. La rara, la llamaban las demás, la chiflada. Cumplía sus tareas y al final de la jornada, cuando las hermanas parecían rezarle a un padre autista, secreteaba ella con otro juguetón y comprensivo. Un dios igual de lunático. 

Ya sé que era solo la cocinera, pero la casa estaba apartada y el verano era tan inacabable que allí todos parecíamos importantes. Pasaba la mañana condimentando alimentos y por la tarde limpiaba los fogones. Si salía al jardín, avanzaba cabizbaja, con grandes zancadas. Como si tuviera prisa. La sujeté por el hombro. Le dije que mirara hacia las montañas, el verdor azulado de los pinos, los pastos aún frescos, las crestas de granito descarnado. No levantó la vista de los guijarros del sendero. Solo hay un paisaje, me respondió. ¿Y esta maravilla? Una postal que nadie me ha mandado. 

4
Si aquel mira, si este mira, si el de más allá está mirando, he de cerrar los ojos para ver. Porque mantenerlos abiertos no sirve ya para distinguir lo que hay, sino para establecer solo un orden. De qué me vale que el de más allá mire, este mire y aquel esté mirando si el cauce común conduce a lo explicable. Si entre todas las miradas componen un acuerdo al que denominan realidad sin la menor objeción. Usan la vista para reconocer lo que ya han visto que hay, no para imaginar lo desconocido. A tientas avanzo hacia lo inexplicable.

[Octubre, 2017]

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